A caça às bruxas contra a privacidade financeira continua. Procuradores federais em Manhattan entraram com um pedido formal para realizar um novo julgamento contra Roman Storm, o desenvolvedor do Tornado Cash. Eles querem levá-lo de volta ao tribunal em outubro para tentar uma condenação em duas acusações gravíssimas: conspiração para lavagem de dinheiro e violação de sanções.
No primeiro julgamento, ocorrido em agosto do ano passado, o júri não conseguiu chegar a um consenso (houve um impasse) sobre essas duas acusações, que podem render até 40 anos de prisão federal. Agora, o governo quer tentar a sorte novamente com um novo júri.
A essência do conflito: escrever código de computador é crime?
Para entender o absurdo dessa acusação, é preciso entender o que é o Tornado Cash. Ele não é uma empresa, não tem um CEO e não guarda o dinheiro de ninguém. Ele é um protocolo descentralizado (um contrato inteligente) na rede Ethereum criado para dar privacidade às transações.
O governo acusa a ferramenta de ter facilitado mais de US$ 1 bilhão em transações ilícitas, incluindo hackers da Coreia do Norte. O problema? Roman Storm apenas escreveu o código aberto (open-source) e o publicou na internet. Uma vez na blockchain, o contrato funciona sozinho. A defesa de Storm argumenta que um desenvolvedor não pode controlar ou ser responsabilizado por como terceiros usam um software descentralizado após o seu lançamento.
Storm foi ao X (antigo Twitter) desabafar sobre o pedido de novo julgamento: “A resposta do governo? Tentar novamente tornar a escrita de código um crime.”
A contradição escancarada do governo americano
O mais bizarro dessa perseguição em Nova York é que ela vai contra a atual postura do próprio governo federal em Washington.
- O Departamento de Justiça (DOJ) circulou um memorando recentemente instruindo procuradores a não agirem como reguladores e alertando contra o enquadramento de desenvolvedores pelas ações dos usuários.
- O próprio Departamento do Tesouro, em um relatório de março de 2026, admitiu que essas ferramentas de privacidade (mixers) possuem propósitos legítimos, como proteger informações financeiras sensíveis, doações para caridade e padrões de gastos de cidadãos comuns.
Mesmo com o governo federal admitindo que a privacidade digital não é crime por si só, os procuradores de Manhattan continuam sedentos por uma condenação exemplar.
A criminalização da privacidade
Privacidade não é crime; é um direito humano fundamental. No sistema bancário tradicional, a sua privacidade já não existe. O banco sabe o que você compra, onde você vai e quanto você ganha, e repassa tudo isso para o Estado.
O caso do Tornado Cash é um ataque direto à base do movimento cypherpunk que deu origem ao Bitcoin. Se o governo conseguir estabelecer o precedente de que o criador de um software de código aberto é criminosamente responsável pelo que as pessoas fazem com essa ferramenta, toda a inovação descentralizada estará em risco.
Imagine se os criadores do protocolo da internet (TCP/IP) fossem presos porque criminosos usam a web para aplicar golpes. É exatamente essa a lógica que o Estado está tentando impor para manter o monopólio da vigilância financeira.
DYOR.


